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Imagine levar, na sua bicicleta, bancos e sombra para o espaço público. Praças portáteis. Vamos lá: imagine uma bicicleta-praça. Imagine uma bicicleta com um banco de praça e guarda sol acoplado. Onde quer que ela pare, nasce uma praça portátil, nasce um lugar de estar, um banco para conversar, uma unidade mínima de encontro na cidade.

Hoje elas acabaram de chegar da fábrica. São dezessete praças-portáteis prontas para a primeira ação. O lugar escolhido está longe de ser um lugar de encontro: Largo da Batata. Já foi vivo em gente e cultura, mas hoje está deserto.

Em sete quadras estaremos no Largo da Batata. Somos em dezessete homens-praça e isso torna difícil a locomoção. O primeiro da fila apita quando o semáforo abre, os outros seguem. Ocupamos uma pista inteira da Rua Cardeal Arcoverde. Atrás de nós, os carros buzinam sempre apressados. Os bancos são portáteis, mas pesam. Logo na terceira quadra, deixamos dois homens-praça para trás, mas os aguardamos na esquina e seguimos em frente.

É possível avistar tapumes verdes cobertos de pichações e uma barraca que vende ervas. O Largo está próximo. Depois das obras do metrô restaram poucas barracas de camelôs, alguns forrós e um ou outro comércio popular. A gentrificação anda a passos largos. Entramos no Largo. O Batalhão de Polícia faz a troca da guarda. Ao fundo, a igreja. Os poderes continuam intactos e cada vez mais presentes. Pombas voam dos fios elétricos para disputar espaço na única árvore remanescente. Não há nenhuma sombra, nem nos pontos de ônibus, que agora são de vidro. Atravessamos em direção ao outro lado do Largo. É um grande terreno vazio, o piso reformado facilita o deslocamento das bicicletas. Aqui é lugar de intensa passagem, mas não de parada. Pessoas atravessam no sol e na chuva até o seu destino.

 

Aos poucos, estacionamos nossas bicicletas-praças. Somos muitos e povoamos o Largo. Abrimos os bancos e instalamos os guarda-sóis. A sombra, o assento e as pessoas já estão lá. Não precisamos esperar as praças serem construídas, imaginamos uma praça-portátil e a criamos. Nossas praças são nômades. Fazemos o encontro onde antes era impossível. Ocupado, vivo, agora o Largo da Batata é a Praça da Batata.