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Nessas duas últimas décadas exploramos diferentes linguagens visuais e práticas artísticas que se insta­lam nas frestas entre os espaços institucionalizados da arte e o espaço comum das cidades. Essa opção reforça nossa vocação em atuar num campo expandido, onde as subjetividades estéticas se mesclam ao engajamento social num plano [micro)político. Essa visão é amparada pela crença de que a configuração de novos e urgentes territórios políticos e poéticos deve conter, na mesma medida, público e privado, centro e periferia, oficial e pirata, artista e espectador. Para colocar um pouco desta trajetória em perspectiva e mostrar os projetos que deram corpo a essa visão, apresentamos a mostra retrospectiva "Arquivo BIJARI". Contradizendo o próprio título, o movimento aqui se constitui em um desarquivamento, revisitando e, em alguns casos, atualizando antigos projetos. A proposta é sobrepor e articular obras e projetos que representam o largo espectro de linguagens desen­volvidas. Encontramos aqui as provocadoras ações urbanas que destilam ironia e humor - os projetos de arquiteturas táticas que ativam espaços urbanos carentes; os lambe-lambes no qual palavras, conceitos e desenhos se completam; as cartografias que jogam luz à perversas estruturas de poder; objetos e escultu­ras que ressoam e ressentem o eco captado pelas fissuras da rua - construções estas que dão forma e voz às narrativas da multiplicidade. A urgência em se posicionar sobre realidades em crise manifestadas nos territórios objetivos e subjetivos, assim como a necessidade de criar as próprias ferramentas para conhecê-las melhor tem sido o detonador dos processos artísticos que colocamos em prática nesses 20 anos. Este processo é ilustrado em "Realidade Transversa", no qual retratamos o cotidiano dos trabalhadores informais convidados a ocupar espaços da arte para que realizassem suas performances cotidianas: nossa forma de friccionar a abstração das tem­poralidades urbanas e questionar o valor da produção do trabalho artístico - como nossa primeira ocupação artística na Casa das Rosas em 2001. Nesta trajetória dialogamos e colaboramos com uma série de outros atores, sejam eles outros coletivos, artistas, vizinhos de comunidade, movimentos sociais, instituições de arte e, sobretudo, com a e própria re­alidade da nossa arquitetura erguida em blocos e cimento. "Zona de Ação", projeto de intervenções criado em colaboração com os coletivos ARNST, Contra-filé, Cobaia e Grupo de Arte Callejero abre espaço no território urbano, até então pouco ocupado por artistas, curadores e colecionadores. A necessidade de desenvolver a pesquisa em outras esferas, fora do circuito artístico tradicional, impulsionou ações subsequentes que discutem urgências onde a própria relação do artista/ar­quiteto com o espectador/habitante se transforma. A crítica sobre a construção da cidade e a forma como ela afeta a articulação de suas dinâmicas e a config­uração de seus imaginários originou uma série de projetos abordando o tema da gentrificação. "Galinha" (2002) questiona os processos de renovação urbana que resultam em exclusão social; "João Bobo" (2005) reflete sobre as formas de violência urbana ao registrar a reação dos passantes provocadas pelos infláveis utilizados como dispositivo detonador. Em "Natureza Urbana", conjunto de ações que formam um eixo de pesquisa em constante evolução, cria­mos uma série de intervenções simbólicas em veículos abandonados nas ruas de São Paulo, transforman­do-os em jardins e trincheiras verdes que brotam da lataria recortada de carros, caçambas e ônibus. Em "Praças [lm)possíveis", a possibilidade de criar zonas autônomas de intimidade e afeto inspirou a criação de bicicletas que se transformam em praças, ativadas em passeios periódicos pela cidade, resultando em espaços temporários de convivência dentro da temporalidade fria e acelerada da metrópole paulistana. A exposição inaugura a Galeria Antipop, novo espaço para veiculação de projetos, conversas e exposições de artes dentro do estúdio.